Transfobia: o que é e como combater

Você sabia que o Brasil lidera ranking mundial de assassinatos de pessoas trans? Venha se informar mais para ajudar no combate a essa violência,

Uma bandeira com as cores azul, rosa e branca que representa pessoas trans.
Bandeira que representa a população e o orgulho trans. Reprodução: https://pt.wikipedia.org/

Já faz algum tempo que pessoas trans têm ganhado espaço na mídia, sendo assim, a sociedade tem sido obrigada a repensar sua atitude para com essas pessoas que foram marginalizadas durante a maior parte da história da humanidade.  História que tem sido marcada por muita violência, que deriva de bastante ignorância acerca da compreensão do que vem a ser gênero e como ele tem sido entendido nos últimos anos. Essa violência tem nome e se chama transfobia. Você saberá mais sobre ela neste post.

Sexo biológico, gênero e orientação sexual

Ainda há bastante confusão no entendimento popular sobre as três palavras acima. No entanto, para uma compreensão do que é transfobia, é necessário que haja uma clara compreensão de cada termo.

Sexo biológico

Está relacionado ao  sistema reprodutivo, genitais, cromossomos.  Dentro dessa classificação, há as categorias masculino, feminino e intersexo. Essas duas primeiras categorias são mais conhecidas. Quando se faz o exame de ultrassom gestacional, o médico diz se é menino ou menina baseado no sexo biológico. Que foi determinado antes mesmo do nascimento.

Há ainda a categoria intersexo que foi durante um longo tempo estigmatizada e chamada de “hermafrodita” (termo que caiu em desuso e é considerado pejorativo hoje em dia). As pessoas intersexos apresentam características ambíguas, isto é,  é possível encontrar tanto elementos do sistema reprodutor masculino, quanto do feminino no seu corpo.

Identidade de gênero

Sexo biológico está para como a pessoa foi identificada antes mesmo do seu nascimento. Identidade de gênero leva em conta o aspecto de sociabilização. Gênero aqui é entendido como uma construção social, uma sucessão de práticas que levam uma pessoa a se identificar como homem, mulher ou outros. Aqui há duas divisões mais conhecidas que é cis e trans.

As pessoas cis são aquelas que se identificam com o sexo biológico. Uma pessoa que foi identificada como menina antes de nascer e que durante o seu desenvolvimento reafirma essa identidade é cis. Já as pessoas trans são aquelas que não se identificam com o sexo biológico que lhes foi atribuído. Uma pessoa pode ser identificada como menino durante o exame de ultrassom gestacional.

No entanto, durante o seu processo de sociabilização ela pode se identificar como menina, não binária (nem com o feminino nem com o masculino) bigênero (com o masculino e o feminino) agênero (com nenhum dos gêneros), ou ainda pode surgir outras configurações.

Orientação sexual

Este último aspecto está relacionado ao desenvolvimento de sentimentos em relação a outras pessoas. Faz-se necessário colocar orientação sexual aqui, porque comumente há muita confusão em relação à sexualidade de pessoas trans.

Como já mencionado, a orientação sexual ou sexualidade se refere ao gênero que a pessoa sente atração sexual e/ou romântica. Se a pessoa se sente atraída por pessoas do gênero oposto, ela é heterossexual. Já se ela sente atração por pessoas do mesmo gênero, ela é homossexual. Por outro lado, se ela se sente atraída por ambos, ela é bissexual. Mas, se ela não sente atração por nenhum gênero, ela pode se identificar como assexual.

Foi enfatizado a atração pelo gênero, porque é o que desperta comumente as pessoas. As pessoas não são imediatamente atraídas pelo sexo biológico. A confusão que as pessoas costumam fazer é dizer que mulheres trans são gays por se relacionarem com homens, no entanto, isso não é verdade. Porque as pessoas sentem-se atraídas pelo gênero, logo, uma mulher trans que sente atraída por homens é uma mulher trans heterossexual. (Para saber mais sobre os três aspectos listados, clique aqui).

Brasil lidera ranking mundial de assassinatos de pessoas trans

Pessoas trans, transexuais e pessoas transgêneras são palavras utilizadas para se referir ao mesmo grupo de pessoas, as que não se identificam com o seu sexo biológico. A atitude de violência, discriminação, ou mesmo a negação da existência de pessoas trans se chama transfobia.

A ONG Transgender Europe analisou os casos de de transfobia ao redor do mudo no período de 2008 a 2016. No relatório publicado em novembro de 2016, o Brasil apareceu em primeiro lugar, liderando o ranking com 868 casos de mortes de pessoas trans. Os dados ficam mais assustadores ao serem comparados com outros países.

Segundo o relatório, o Brasil matou mais do que triplo de pessoas trans comparado ao segundo colocado, o México, que registrou 256 casos durante o período de janeiro de 2008 a julho de 2016. Somando todas as mortes foram 2. 190 vidas perdidas ao redor do globo.

Há uma certa dificuldade em contabilizar os dados, uma vez que alguns casos não são registrados como transfobia. São noticiados como “homem vestido de mulher é morto”, ou relatos afins.

Os dados podem parecer alarmantes, mas não trazem tanta novidade. Uma vez que a expectativa de vida de pessoas trans, no Brasil, é de em média 35 anos, enquanto que a da população em geral é de 75,5 anos.

Casos de transfobia

Pessoas trans são expostas à violência desde muito cedo.  Para que você tenha um quadro menos abstrato, a seguir haverá alguns exemplos dessa violência a que pessoas trans estão sujeitas no dia a dia.

Em 2014, no Rio de Janeiro, um pai espancou uma criança de 8 anos até a morte. O motivo era que o pai queria ensinar a criança a “ser homem”. Alex rebolava enquanto lavava a louça e vestia roupas femininas.

O relatório da ONG Transgender Europe também registrou um caso em Araraquara,  de uma garota trans de 13 anos, mais uma vítima da exploração sexual. Ela foi encontrada morta com 15 facadas pelo corpo incluindo cabeça e face, além de uma fratura no crânio.

Um caso que ganhou bastante projeção da mídia foi o da mulher trans Dandara dos Santos. Ela sofreu um espancamento brutal e foi assassinada. Poderia ser só mais um assassinato, mas um vídeo foi divulgado 16 dias depois da sua morte. No vídeo,  sofre agressão de três homens.  Ela pede insistentemente para que seus agressores parem, no entanto, ela não é ouvida.  Então ela é agredida de múltiplas formas. Além disso, há outras que assistem à violência e nada fazem além de instigar as agressões. Por fim, ela recebeu dois tiros e uma pedrada na cabeça que a levaram a óbito.

Sem direito a estudar

A escola é um dos lugares primários de socialização das crianças. É lá que elas além de estudar, desenvolvem várias relações, estabelecem amizade. No entanto, a experiência para pessoas trans pode ser muito difícil, ou ainda mesmo traumatizante. O jornal Correio Braziliense  publicou uma matéria que contava com o relato de algumas pessoas trans e suas experiências escolares.

Rafaela coelho

Uma das pessoas  entrevistadas foi Rafaela Coelho, uma mulher trans de 22 anos. Ela relata um pouco do sofrimento que foi passar pela escola. Diz que se sentia sempre deixada de lado e não se encaixava em nenhum lugar. Ela vivia uma constante infelicidade, era depressiva e tentava não ser notada. Mas isso não foi suficiente para impedir que ela sofresse bullying e fosse assediada.

Ela afirmou que a escola nunca forneceu nenhum tipo de proteção, antes, afirmava que o problema estava nela por ser depressiva. Foi depois de uma reprovação escolar, que Rafaela pediu para que os pais pagassem um curso de cabeleireira, a fim de que ela tivesse uma profissão. Foi assim que ela deixou a escola e passou a trabalhar. Ela conta que a reprovação foi como uma carta de alforria.

Rafaela Damasceno

Outra entrevistada foi a goiana Rafaela Damasceno. Ela foi uma das  primeiras mulheres trans a ingressar em uma universidade pública brasileira. Ela foi admitida para estudar geografia na Universidade Federal de Goiás (UFG). No entanto, o que parecia ser a realização de um sonho, logo se tornou em um pesadelo.

Rafaela foi vítima de transfobia tanto por parte dos colegas quanto por parte dos professores.  Ela desabafou “Se não fosse o ódio, eu não tenho dúvidas, hoje, eu seria doutora”. Desde as primeiras semanas de aula ela notou que sua rotina não seria fácil. Ficavam apontando para ela e a tratavam mal, “como se eu fosse um bicho”, afirma ela.

Cenas de violência escolar podem não parecer, mas fazem parte do cotidiano de pessoas LGBTQIA+ em geral. Em uma pesquisa feita pela Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais (ABLGBT), que teve seu relatório divulgado em dezembro de 2016, 75% dos estudantes que não se declaram heterossexuais já sofreram agressões verbais na escola.

Combatendo a transfobia

Embora o cenário até aqui tenha se mostrado desanimador em relação à vida da população trans. Mas há o que se pode fazer no combate à transfobia. A seguir haverá uma série de atitudes que podem contribuir nessa luta.

Duas pioneiras na luta pelo direito de pessoas trans estão marchando
Marsha P, Johnson e Sylvia Rivera em uma manifestação pelo direito das pessoas trans e LGBTQ+ em geral. Reprodução: https://esqrever.com/

Informe-se sobre transfobia

O primeiro passo para o combate é a informação. Faça suas próprias pesquisas. A transfobia pode se manifestar de múltiplas formas. Informar-se permitirá você perceber como a transfobia se materializa no cotidiano por meio de palavras e ações. Pode parecer algo abstrato, mas você pode começar vendo por frases que mascaram essa violência e seguir adiante com sua pesquisa.

Ouça pessoas trans

Além da informação, algo essencial no combate à transfobia é ouvir as pessoas trans. Pode não parecer muito, mas essa iniciativa é muito importante nessa luta. Ouvir as queixas, os temores, inseguranças e anseios da população trans já é algo que ajuda na elaboração de estratégias de combate à transfobia.

Apoie pessoas trans

Pessoas trans geralmente estão socialmente em desvantagem, além disso, precisam lidar com todo o estigma de ser trans. No entanto, uma atitude de apoio ao trabalho que essas pessoas fazem pode ajudar. Conheça os trabalhos de Luísa Marilac, Jonas Maria , Mandy Candy e Liniker. Procure por pessoas trans nas áreas que você tem interesse.

Ofereça ajuda a casas que abrigam pessoas trans

Como já foi mencionado, algumas pessoas trans esbarram com a discriminação desde muito cedo. Algumas delas são expulsas de casa e vivem em situação de rua. No entanto, pensando nisso, algumas pessoas organizam casas de acolhimento. Busque por Casa Transvivência, Casa Aurora  e Casa Chama que se dedicam a realizar esse trabalho. Envolva-se e contribua.

Essas medidas podem parecer muito poucas, mas já contribuirão bastante na luta contra a transfobia.

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